Polícia
Caso João Guilherme: infecção generalizada levou à morte de menino que foi 7 vezes ao médico em MS, aponta atestado
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Menino de 9 anos morre após sucessivas idas à UPA. — Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

A certidão de óbito de João Guilherme Jorge Pires, de 9 anos, indica que a causa da morte dele foi uma insuficiência respiratória que ocorreu a partir de uma septicemia, provocada por artrite séptica. O documento foi registrado em 8 de abril de 2026, em Campo Grande, após o menino passar por sete atendimentos médicos na capital.

O atestado de óbito indicou que a causa imediata da morte foi insuficiência respiratória, ou seja, o menino não conseguiu respirar adequadamente nem fazer as trocas de oxigênio necessárias para o funcionamento do corpo. João Guilherme morreu à 1h05 do dia 7 de abril, na Santa Casa de Campo Grande.

Na prática, o que o documento indica que o menino sofreu uma cadeia de complicações:

  1. 🦠Entrada da bactéria - após a queda, pode ter surgido uma lesão que funcionou como “porta de entrada”, permitindo que bactérias entrassem no organismo;
  2. 🦵Infecção na articulação - essas bactérias podem ter chegado à corrente sanguínea e se alojado em uma articulação, causando a chamada artrite séptica, uma infecção grave com inflamação local.
  3. 😷Disseminação pelo corpo - sem tratamento rápido, a infecção pode ter se espalhado pelo sangue, evoluindo para septicemia (infecção generalizada) e formando coágulos infectados que atingem órgãos;
  4. 🏥Comprometimento dos órgãos vitais - com a progressão do quadro, órgãos como os pulmões podem ser afetados, levando à insuficiência respiratória e, em casos graves, à morte.

Artrite séptica e septicemia

 

O reumatologista e presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), José Eduardo Martinez, explica que a artrite séptica é uma infecção causada por bactérias que se instalam em uma articulação.

Segundo o especialista, o problema pode começar a partir de uma “porta de entrada”, como uma infecção respiratória ou pela pele. A bactéria entra na corrente sanguínea, circula pelo organismo e pode se alojar em uma articulação, onde provoca inflamação.

Até esse estágio, o paciente pode apresentar sintomas gerais, que nem sempre indicam de imediato o problema articular. Em quadros mais graves, há sinais como febre alta e outras alterações no corpo, que exigem tratamento rápido, como comenta o reumatologista.

A reumatologista Veruska Atalla avalia que, no caso de João Guilherme, a infecção pode ter começado após a queda, com uma lesão que teria permitido a entrada de bactérias no organismo.

A partir deste estágio, o microrganismo pode ter atingido a articulação e evoluído para um quadro grave. A médica comenta que esse processo pode ter contribuído para a insuficiência respiratória que levou à morte do menino.

“Esse tipo de situação exige diagnóstico rápido, lavagem da articulação e uso imediato de antibióticos. Com a evolução, a bactéria pode se espalhar pelo sangue, causando septicemia e formando coágulos infectados que comprometem órgãos vitais, como os pulmões”, explica a reumatologias Veurska Atalla.

Idas e vindas de UPA e hospital

 

Uma sequência de atendimentos médicos marcou os últimos dias de vida da criança em Campo Grande. Veja abaixo, em ordem cronológica, como foram as idas às unidades de saúde, conforme informado pelos familiares à polícia:

  • Quinta-feira (2 de abril) - Após cair e bater o joelho enquanto brincava, o menino foi levado à UPA Tiradentes. No local, passou por consulta e realizou exame de raio-x. Sem lesões aparentes, foi liberada com prescrição de dipirona e ibuprofeno;
  • Sexta-feira (3 de abril) - Como o quadro não apresentou melhora, a criança foi levada ao IPA Universitário. Após nova avaliação médica, recebeu a mesma medicação e foi novamente liberada;
  • Sábado (4 de abril) - A família procurou atendimento na UPA Universitário. A criança foi medicada com uma injeção e se queixava de dores no peito. Segundo relato, a situação foi tratada como ansiedade, e o menino foi liberado;
  • Domingo (5 de abril), à tarde - A criança retornou à UPA Universitário, onde permaneceu em observação. Um novo exame de raio-x identificou uma lesão na perna, na região do joelho. A orientação foi procurar a Santa Casa no dia seguinte para imobilização;
  • Segunda-feira (6 de abril) - Já na Santa Casa, a criança teve a perna esquerda imobilizada com uma tala e foi liberada;
  • Noite de segunda-feira (6 de abril), à noite - Em casa, a criança passou mal, desmaiou e chegou a ficar com coloração roxa. Ela foi levada desacordada à UPA Universitário, onde foi reanimada e entubada;
  • Morte na madrugada da terça-feira (7) - Em seguida, foi transferida para a Santa Casa, mas não resistiu. O óbito foi confirmado à 1h05.

Investigação continua

 

O caso segue sob investigação da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA), que analisa se houve falha ou omissão no atendimento médico prestado ao menino.

O que dizem as autoridades?

 

A DEPCA analisa os prontuários médicos para verificar se houve falha ou omissão nos atendimentos prestados ao menino.

O Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul (CRM-MS) e o Conselho Municipal de Saúde também acompanham o caso para apurar possíveis responsabilidades dos profissionais e das unidades de saúde.

Em nota, a Sesau informou que o caso está sendo apurado com base nos registros médicos das unidades. A secretaria afirmou ainda que, se forem identificadas falhas ou desvios de conduta, as medidas cabíveis serão tomadas.

A morte foi registrada como homicídio culposo, quando não há intenção de matar.

Por: g1.globo/ms

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